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Crônicas do Méier: O leão, a florista e a Dias da Cruz

  • 29 de jun. de 2019
  • 3 min de leitura

Atualizado: 9 de set. de 2020

Onde a cultura, os crimes e a história do tradicional bairro carioca se encontram.


Estátua do Lions Clube, ponto de destaque da rua Dias da Cruz

“Quando eles vão embora é que o bicho pega” diz a florista em frente ao rei da selva. “Eles” são os policiais, “o bicho” são os assaltos e a florista é Célia Maria Pavão Dourado de Oliveira, vendedora de flores há 26 anos na Praça Agripino Grieco, no Méier. O leão, em essência, é apenas uma estátua colocada pelo Lions Clube como representante da organização, mas tornou-se o grande ícone do bairro. Sua pose triunfante não intimida os pichadores que sempre pintam-lhe os colhões com cores de destaque. Dourado, o leão se apoia num L amarelo, como é a cor de quase todos os monumentos da rua Dias da Cruz, inclusive do primeiro que se vê: um velho chafariz desativado logo no início da rua — tão velho e tão desativado que muitos moradores atuais sequer sabem, ou lembram, que, há 12 anos, funcionava ali um chafariz. Depois de 2 quilômetros e meio de lojas, restaurantes e prédios comerciais e residenciais, a rua acaba na frente de um Centro de Assistência Social. Fato curioso, já que o velho chafariz fora, outrora, o chuveiro de pessoas em situação de rua, que embora não se banhem mais ali, permanecem, ainda, na Dias da Cruz.


Além dos monumentos, amarelo é, também, a cor dos coletes usados pelos policiais militares da operação Méier Presente. Desde seu início, em 2016, a criminalidade no bairro, principalmente na rua Dias da Cruz, tem sido reduzida. Em fevereiro de 2019, por exemplo, foi registrado que, no intervalo de um ano, os roubos de carro reduziram pela metade e os assaltos a pedestres, em 20%. Todavia a operação ocorre somente até as 21h, o que torna a rua novamente vulnerável ao crime depois desse horário. Em relação ao posto desses policias, o quiosque da florista Célia Maria de Oliveira (ou tia Célia, como a chamam os mais jovens) fica há uma distância média de 50 a 100 metros. Tão perto que de um lugar, enxerga-se o outro, mas suficientemente longe para não intimidar os infratores da lei. Tia célia já presenciou um usuário de crack consumindo a droga na frente da sua floricultura — e deu uma bronca nele, como somente uma mulher com autoridade suficiente para ser chamada de tia por jovens adultos poderia fazer. “O cara olhou pra mim assim... Não fiquei com medo não! Falei: se você não sair daqui eu vou chamar a polícia” relembrou em tom de simplicidade.


A mesma praça que fica em frente ao leão (como que vigiada por ele), que comporta o posto do Méier Presente e o quiosque da tia Célia, comporta também outras coisas importantes. Não me refiro, contudo, ao que fica na praça (se ficasse não falaria tanto sobre a identidade do bairro), mas sim ao que passa pela praça: as diversas manifestações culturais que acontecem no pequeno anfiteatro. No “palco” da praça, já pisaram grandes bandas desconhecidas e independentes do Rio de Janeiro, além de Dj’s fazendo bailes, rodas de capoeira e aulões de alfabetização com a pedagoga Rosely Santos Firmino de Souza, conhecida como tia Lily. Uma vez por ano, acontece também a tradicional cantata de natal no prédio na frente da praça, organizada pela Igreja Batista do Méier. Quando há bailes e shows ao ar livre, é tia Célia quem fornece energia aos artistas (Pelo menos a elétrica). A pesar da poluição sonora do lugar, com carros a toda hora, couverts artísticos nos bares, etc... Célia nega ter qualquer posicionamento contrário aos eventos na praça, exceto os bailes que ocorrem de madrugada feitos com o som de um carro. Quanto a isso, ela não floreia: “Hoje é dia de inferno! Tomara que chova pra cacete pra não ter isso!”, reclamou. Ao ser questionada sobre o leão, Célia, como a feiticeira do conto de C. S. Lewis, não perdeu a oportunidade de lhe fazer oposição: “bota a minha estátua em cima do leão, montada, fazendo assim pra todo mundo, óh!”, debochou mostrando o dedo médio.

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