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Quase no fim da festa: se o punk não morreu, ele está em coma

  • 24 de jul. de 2019
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Retratos de um punk vegano na periferia do Rio de Janeiro.



“Quero uma festa punk!” berravam Os Replicantes em 1987 enquanto se tornavam um dos grandes nomes do punk rock nacional. Hoje, 32 anos depois, "a festa está no fim e nós estamos pegando o restinho do bolo.". É o que diz Alexander dos Santos Bezerra a respeito da vertente punk a qual ele pertence: o Straight Edge. Alex é negro, alto, magérrimo e dono de um black power amarelado como as páginas velhas de um livro usado. Páginas que compõem uma parte importante da vida do jovem: Alex trabalha como vendedor no sebo Academia do saber, localizado no centro do Rio de Janeiro. O Straight Edge (abreviação: “sxe”) é uma filosofia de vida em que seus adeptos se posicionam contra o uso de qualquer tipo de entorpecente (lícito ou ilícito), mas Alex explica: “não porque nós vemos uma moral por trás disso, mas porque vemos essas coisas como algo que não nos faz bem”.


Morador de Austin, na Baixada Fluminense, até seus 18 anos, Alex não gostava de punks até começar a namorar uma. Ele explica que conhecia o movimento a partir de confusões iniciadas por punks ou ameaças feitas à amigos dele, mas com o tempo começou a entender e agir como eles até que mudou de opinião. Quando descobriu o movimento Straight Edge, logo se identificou e tomou uma decisão: “super batia com algumas críticas que eu já tinha com a indústria de drogas, aí eu pulei na ideia e falei: acho que é isso que eu quero pra minha vida”, relembrou, alegando também que quando isso ocorreu, seis anos atrás, o movimento já estava acabando e que continua assim, em contraste com a constante expansão de todas as vertentes punks que havia nos anos 80. Segundo o vendedor de livros, o grande esforço do Sxe é de mostrar uma forma de se vivenciar a música. “O Sxe veio dizer que não era só bebida, fumar e arrumar alguém pra noite”, declarou. Para ele, contudo, isso deve ser feito de forma natural, pois considera o Straight Edge algo subjetivo. “Hoje quando eu digo que é algo subjetivo, é sabendo que já teve gente que militou de forma agressiva pelo Straight Edge e a maioria dessas pessoas não são mais Sxe” afirmou.


Fã de desenhos japoneses, Alex teve seu primeiro contato com o punk rock ainda na quinta série, através de um amigo chamado Guga que apresentou a ele tanto as bandas de rock quanto os desenhos. “Eu espero que ele saiba disso: ele acabou com a minha vida!” atestou enquanto segurava o riso. Depois de conhecer a banda paulista Ratos de Porão, Alexander começou a tomar gosto pelo chamado Hardcore Punk. Depois, desgosto pelos punks. Um dia começou a namorar uma punk e, por fim, tornou-se um deles. Além da filosofia anti-drogas, Alex também incluiu o veganismo como estilo de vida. Para ele, embora seja muito anterior ao punk, o veganismo deve sua popularidade atual ao Straight Edge e ao Hardcore Punk. Ele ressalta que a maioria dos Straight Edges são vegetarianos e que “embora não seja algo cobrado para se tornar um Sxe, as pessoas esperam que seja uma etapa que você vai alcançar com o tempo” frisou. As primeiras experiências mais profundas de Alexander com o Straight Edge e com o veganismo estão atreladas à sua primeira namorada: Joyce Benário, na época, adepta de ambas as filosofias. Durante o namoro, Alex passou a não somente vender lanches veganos, mas também a cozinhá-los junto com a Joyce — embora ele ainda consumisse carne nessa época. Foi nesse período em que começou a frequentar shows punks e também a se identificar como um. Devido à essa experiência, mesmo após o término do relacionamento, o jovem continua vendendo os lanches como forma de incentivar a disseminação do veganismo.


Vivendo atualmente no Morro do Andaraí, com a mãe, um casal de irmãos e uma pitbull, o vegano defende a importância de adaptar o estilo de vida à realidade de cada um. “A minha pasta de dente não é vegana, mas eu não vou pra São Paulo comprar uma pasta de dente Contente pra poder escovar os dentes, porque como eu vou pra lá? Já pedi pra algumas pessoas trazerem, mas é difícil, é maior rolézão”. Para tornar mais acessível, o rapaz produz sua própria comida — conforme a essência do punk: do it yourself (faça você mesmo), e vende hambúrgueres veganos à 5 e 10 reais em shows de bandas grandes e pequenas. Na primeira vez que saiu com Joyce, venderam pastéis de jaca por 1 real, o que foi, segundo ele, essencial para que as pessoas comprassem sem medo de perder dinheiro. “colocamos o preço baixo, até porque os punks só tinham dinheiro pra se drogar, economizava o máximo dinheiro possível pra poder comprar o máximo de droga possível”, comentou, acrescentando que os poucos Straight Edges que sobraram também estavam sempre sem dinheiro.. Alex sustenta que a desinformação é uma dificuldade maior do que o dinheiro para que um pobre se torne vegano. “Porque não existe um evento vegano aqui. Existe na barra da tijuca, existe lá no grajaú, mas aqui na favela, no morro, não tem isso”, reclamou. Para ele, um evento vegano na favela deveria se valer de elementos mais próximos da realidade dos moradores, como um festival de grafite. Alexander também disse já ter pensado em organizar algum evento como esse, mas que o hip hop seria uma opção melhor do que o punk por não ter a premissa de confronto com a sociedade.


Hoje, trabalhando no sebo, Alex se sente prestando um serviço para a comunidade e não hesita em dizer que o trabalho está entre as melhores coisas que já aconteceram na vida dele. “Eu faço tudo o que eu posso pra transformar aquele ponto em algo cultural e não só profissional, sabe? Porque muitas vezes a cultura tende a ir pra um lado e o mercado pro outro” desabafou. Tendo cursado 4 períodos de direito (curso que abandonou devido à um princípio de depressão que ocorreu próximo à separação dos pais), ele pretende voltar à faculdade algum dia e mudar de profissão, mas, segundo suas próprias palavras: “no momento esse trabalho é a grande vocação da minha vida”. Durante o expediente, busca apresentar e conhecer autores, assuntos, livros... O que por vezes lhe causa um puxão de orelha do patrão, mas ele se recusa a deixar de fazer do trabalho uma experiência diária de novos aprendizados transmitidos e absorvidos. Afinal, nunca vi um fim de festa em que as crianças não insistam em pegar com o dedo cada restinho de bolo e do glacê.


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